Seminário de Antropologia Urbana

O próximo Seminário de Antropologia Urbana contará com a apresentação da investigação de Ximene Rego, Por uma etnografia urbana do medo, no próximo dia 27 de Maio, às 18h, no ISCTE, na sala 229 da AA.

Aquilino nas Ruas de Lisboa - I


Foram recentemente reeditadas as memórias de Aquilino Ribeiro, Um Escritor Confessa-se (Bertrand). Nelas, o autor debruça-se sobre os primeiros anos de vida em Lisboa, e a sua participação activa no movimento republicano que o levou a lidar de perto com os regicidas.
Em 1906, acabado de sair do Seminário de Beja, de forma conturbada, Aquilo decide tentar a sorte em Lisboa. Com pouco dinheiro, instala-se numa “casa de hóspedes de terceiro andar” na rua do Crucifixo, bem junto do elevador de Santa Justa:

“Que ruído é este? – perguntei
- É o “inlevador”. Por dez réis, está-se no Chiado.
Era um petardear constante, como uma máquina de percussão a furar uma placa de aço. Nada mais infernal e macaco para o ouvido duma pessoa que acaba de deixar uma casa onde o silêncio era de lei.
- Aqui tem a importância da quinzena – emiti eu.
- Pode trazer a “bagage” quando quiser. Os almoços começam às 10.
Instalei-me naquela casa, a primeira que me caiu a talho dos olhos, lendo o jornal. De princípio, com o taquetaque contínuo, seco, metralhante, não pude dormir muitos dias a fio. Depois acabei por eliminá-lo, habituando-me, e deixei de ouvir o trabuquete frenético que chateava a rua inteira. A minha pulsação tinha-se somado com a sua e feito osmose. Era como se estivesse calado, e agora debruçava-me à janela a ver caminhar para ele quem tinha que fazer no Bairro Alto, às vezes cachos de gente pressurosa, variegada, que desaparecia no portal do ascensor como formigas no formigueiro. Dali, gozei a meu cómodo o espectáculo da rua, com os alfacinhas espairecendo em seus adornos e meneios, sem darem conta que eram observados."

(p. 96)


Foto retirada daqui

Fifth International Convention of Asian Studies

Rita d'Ávila Cachado, investigadora do projecto da A Cidade e a Rua, apresentou um paper na Fifth International Convention of Asian Studies,que decorreu em Kuala Lumpur, Malásia, entre 1 e 5 de Agosto de 2007, intitulado “Hindu women and housing problems: a case at Lisbon’s outskirts”. Aqui fica o abstract.

Abstract:Since mid-1960’s, the outskirts of Lisbon has been transformed with thriving neighbourhoods, made primarily out of wood. In the late 1970’s, with the former African colonies’ independences, 250 thousand people moved into these neighbourhoods, bringing bricks and buying the wooden houses – similar to those of their original locations. Hindu communities lived primarily in two of these neighbourhoods, such as Quinta da Vitoria – where the first Hindu temple in Portugal was built – which is the neighbourhood where I have been conducting my field research since 2000. Thirteen years ago, the Portuguese government introduced a special social housing program for those living in so-called shanty towns, which is not yet finished. Tired of waiting for a proper house, some people began to develop strategies, trying to hurry their housing process.Throughout the years, the group that gained more social mobility in that process were Hindu women. For the reason that they are ought to be in the house all day, they would have more time to go to welfare state institutions to require documents. Consequently, they had to improve Portuguese language, which most Hindu women normally did not need do learn and they had to try to understand the bureaucratic system. In this paper I will focus on an unexpected social mobility of women, since it comes from an exclusion site. Additionally, the institutional encounter between welfare institutions and immigrated populations living in these neighbourhoods need to be revised through a critical lens, since this institutional encounter has some reflexes with former colonial encounter.

Seminário de Antropologia Urbana




O próximo Seminário de Antropologia Urbana será em torno da apresentação da investigação de João Martins Habitação e a Cidade: Lisboa e o Bairro da Liberdade no próximo dia 13 de Maio, às 18h, em sala a anunciar brevemente.

THALE, Christopher, The Informal World of Police Patrol: New York City in the Early Twentieth Century, in Journal of Urban History, 33-2, Jan 2007

Nos últimos anos os historiadores têm vindo a descobrir a patrulha policial como objecto de estudo. Três perspectivas têm sobressaído. Uma, mais ligada à história política, analisa a patrulha como momento de aferição prática das regulamentações legais, avaliando a capacidade real do Estado em intervir na sociedade. Outra perspectiva, no âmbito da história do trabalho, tenta compreender as estratégias da patrulha policial, especialmente a incorporação de procedimentos burocráticos e dispositivos tecnológicos como factores uniformizadores desta prática. Finalmente, influenciada pelo olhar sociológico e antropológico, a terceira perspectiva analisa a patrulha através da inserção do polícia no contexto social patrulhado. É nesta última que este artigo se insere.
A primeira qualidade deste artigo está nas fontes utilizadas. O uso sistemático de registos disciplinares é uma originalidade nesta área de estudos. A descrição das situações em que os polícias eram castigados, as alegações dos polícias, e a classificação das penas aplicadas possibilitou um retrato rico do patrulheiro nas primeiras décadas do século XX em Nova Iorque.
O autor sustenta que as especificidades do trabalho policial conduziram a uma inserção do polícia nas redes sociais dos bairros, elemento central na definição do mandato policial. Estas relações, baseadas em trocas de recursos e interesses comuns, são neste artigo analisadas como a essência do policiamento. Ao longo do artigo são analisados diferentes tipos de relacionamento, por exemplo com o rapazio que andava pelas ruas ou com os habitantes das esquinas, sempre tentando compreender a dualidade (punição / colaboração) inerente a estas relações. No entanto, o autor dá especial relevância aos encontros e relações entre polícias, donos de lojas e porteiros. Nestes casos, mais que nos anteriores, existia uma reciprocidade de recursos e interesses. Ao polícia interessava ter uma casa de banho onde fazer as necessidades, um canto onde pudesse dormir um pouco, uma sopa quente ou simplesmente um tecto para abrigar-se da chuva. Aos porteiros, mas especialmente aos donos das lojas, interessava ter um ambiente ordeiro, sem rufias ou mendigos a provocar desordens, sem roubos, sem vidros partidos, e sobretudo ter um polícia que não fosse muito rigoroso no cumprimento de certas leis. Como o autor conclui, os polícias eram nestas situações vistos como aliados. O que o artigo explora pouco é a dimensão conflitual que existia mesmo nestes dois casos, mormente a aplicação das posturas municipais (city ordinances) que obrigavam, por exemplo, os lojistas a desobstruir os passeios.No geral, os polícias eram pessoas faladoras, sempre prontas para uma boa conversa sobre desporto ou política, com quem a maioria dos habitantes da cidade tinha pouco ou nenhum contacto. No entanto, através do conhecimento mais ou menos profundo da rua, um saber categorizado e muitas vezes estereotipado, o polícia ia solucionando circunstancialmente os problemas quotidianos da cidade, mas também os seus próprios problemas.
Por Gonçalo Rocha Gonçalves

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